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Contracorrente

Reconhecimento? Depende do valor do donativo.

«Na sua carta aberta, Nelson Patriarca contesta também o mecanismo que Costa desencadeou para incentivar donativos dos militantes eleitos em cargos de representação do PS ("não duvide que lhe será garantido o devido reconhecimento: informaremos a sua Secção e a sua Federação dos nomes de quem contribuiu e das quantias recebidas")»

Os militantes são reconhecidos pelo valor das suas contribuições? 

O PS devia apresentar-se como uma verdadeira alternativa. Mas velhos hábitos são difíceis de perder. 

 

   

Estranho país

A pensão média não chega a 400 euros; dizem-nos que o problema é o sistema de pensões, é o conjunto dos pensionistas que, em média, recebem menos do que o salário mínimo. O desemprego e o ajustamento salarial provocaram um rombo épico à segurança social, criando um buraco que agora querem tapar; mas isso é omitido, repetindo-se constantemente que o problema é puramente demográfico. Não se pode dizer às pessoas que vão ter uma pensão mais baixa por causa do ajustamento, por causa de quem o promoveu e executou como política - os mesmos que querem agora tapar o buraco. Dizem-nos que é preciso cortar nas pensões a pagamento porque os mais novos têm a pensão em risco, num puro golpe de retórica: não visam esses cortes garantir pensões maiores no futuro, pelo contrário, avisam-nos que teremos pensões mais baixas no futuro.

E o cúmulo de tudo: os mesmos que falam desta forma dos problemas da segurança social não só não se referem ao elefante na sala que é o ajustamento, como vêm propor um plafonamento. Significaria a total descapitalização da segurança social, a sua insustentabilidade para pagar pensões atuais e futuras. Lágrimas, afinal, de crocodilo foram vertidas pela segurança social. Tudo parece passar ao lado de boa parte da imprensa, que reproduz acriticamente a retórica do engano e a irresponsabilidade épica proposta logo a seguir ao discurso apocalíptico, isto quando não participa ativamente em tal discurso logicamente contraditório e, no plano valorarativo, pouco recomendável. Triste país.

 

Cheira a esturro

A Turquia bombardeia posições do Estado Islâmico e, ao mesmo tempo, posições curdas no norte do Iraque e na região de Tel Abyad, recentemente tomada pelo PKK ao EI. Ou seja, a Turquia bombardeia posições indeterminadas (sem relatórios de danos) algures no interior da Síria e posições recentemente conquistadas (e, logo, frágeis) dos curdos na frente com o IE e os seus centros estratégico de comando no norte do Iraque.
Sou só eu, ou isto cheira a esturro e a mais uma prova de que o governo islâmico radical do partido turco AKP apoia descaradamente o Estado Islâmico?...

Tripla Via Rápida para o Desenvolvimento de Portugal

Existem três vias rápidas para desenvolver a nossa democracia e, indirectamente, a economia;
1. Reformar - agilizando - a Justiça
2. Diminuir os níveis de abstenção
3. Aumentar os níveis de participação cívica e partidária dos cidadãos.

Pelo 1, incentiva-se a economia a funcionar. Pelo 2, estimulam-se as boas praticas de governação. Pelo 3, dinamiza-se a sociedade civil, o seu papel complementar de solidariedade e apoio aos mais pobres e necessitados e se cria uma sociedade civil viva e actuante, como existe nos países mais desenvolvidos do mundo.

Que efeitos?

Que valores e práticas de cidadania activa terá a actual geração de jovens "nem-nem" (nem emprego, nem estudam) reforçada com a regra quase universal de emprego jovem precário e de baixos salários?
Que níveis de participação cívica e politica serão os destes jovens quando chegarem à idade adulta e que reflexos globais existirão na qualidade global da democracia?
(profundos e graves, estou certo)

Sem "Plano B"

Como disse no mesmo dia em que se soube do total ajoelhamento grego face aos credores, o grande erro de Tsipras foi o de ter ido para as negociações sem um "plano B" (saída preparada do euro).
Isso mesmo admitiu recentemente o próprio ao escrever que "o regresso ao dracma iria provocar o colapso".
Ora a saída da Grécia do euro deveria ter sido devidamente preparada nestes cinco (5!) Meses. Não foi. Alias, essa saída é, ademais, inevitável a prazo: ninguém (de credores aos gregos) acredita que mais austeridade vai resolver alguma coisa ou que mais divida nova para pagar divida velha será uma solução viável para a Grécia.
A saída da Grécia não é o fim do euro (como disse António Costa), a saída é, mesmo a sua única saída viável e de futuro, admitindo-se aqui, contudo, vários modelos de "saída" em que as moedas locais (que já existem) ou uma moeda de curso interno poderão ser parte desta solução.

Partido Socialista - estabilidade e dignidade

Há uma questão ideológica muito vincada nestas eleições, e que tem sido muito focada, mas há muito mais do que isso. Há uma questão de dignidade e de estabilidade. Este governo não teve qualquer pudor em desbaratar toda a esperança e todo o orgulho do país. O argumento atual é o de que isso era necessário para podermos reconquistar credibilidade, para evitar uma capitulação ao estilo da Grécia, como se a incompetência política do Syriza fosse desculpa para a inépcia política portuguesa. É como se nos puséssemos de joelhos preventivamente para não ficar de joelhos postumamente, sendo que o resultado é de soma nula. Não acho que o pin na lapela seja uma coisa pindérica, ou que seja algo ao arrepio do desdém pela dignidade portuguesa. Pelo contrário, é mesmo um símbolo desse desdém: não se sendo, procura-se parecer. A total desconsideração não foi apenas pela dignidade do país enquanto ente coletivo, foi também pela dignidade dos próprios portugueses, sacrificados a um pretenso sacrifício salvífico por uma redenção que nunca chegou nem chegará, instrumentalizados a um projeto político de concentração da riqueza por via duma redistribuição invertida, da base para o topo.

Mas também há uma questão de estabilidade. Com uma maioria absoluta, este governo de coligação esteve sempre à beira da rutura. Os dois líderes, senhores Passos Coelho e Paulo Portas, não se conseguem entender na partilha de poder, quando dominam o parlamento e a presidência da república. Alguém imagina como se irão concertar num possível governo minoritário (a crer nas sondagens)? Poderiam as dificuldades políticas servir para os aproximar, mas isso requereria um espírito de missão e algum despojamento. O risco é enorme. Alguém consegue confiar que qualquer um dos dois, Passos ou Portas, não roerá a corda assim que julgue que tem condições para isso, num momento que lhe seja mais favorável face ao outro? Até com a troica em Portugal, Portas tentou fazê-lo em 2013.

Não é irrelevante que um governo minoritário seja do PS ou da coligação PSD/CDS. Admitindo o cenário de um PS com maioria relativa, o facto de ser só um partido, além disso consolidado na democracia portuguesa, oferece uma garantia: a da solidez na governação, apenas correndo o risco de cair por uma moção de censura no parlamento, o que seria legítimo mas só colocaria um desafio externo do governo face às oposições, não um desafio interno juntamente com o externo (caso dum governo de coligação PSD/CDS minoritário). Nem se invoque a chamada “ala esquerda” do PS: salvo exceções, tratou-se duma manobra tática dum grupo dentro do PS, contra a liderança de Seguro; perante a liderança que se pretendia, com a configuração de poder interno desejada, tal ala esquerda já se esfumou na aliança ao líder, na crítica à esquerda radical (coisa que antes se arremessava contra Seguro), enfim, no ocaso do discurso mais consciente, em parte certeiro.

Para quem queira estabilidade, o PS é melhor do que a coligação PSD/CDS, em qualquer das circunstâncias que se afiguram presentemente. Por outro lado, por muito que o PS ziguezagueie, hesite, não apresente um debate sério sobre a austeridade, nomeadamente em matéria de tratados europeus, esteja demasiado elitista, tenha um programa económico assente largamente na ideia irresponsável de descapitalizar a segurança social, a verdade é que tem um discurso social que a coligação não tem. Está disposto a acordos europeus que tenham em conta o interesse dos portugueses a que a coligação não está, pelo contrário – o governo português apressou-se, recentemente, a apertar a Grécia em reuniões europeias mais do que o próprio governo alemão, apenas para não perder a face internamente na sua lógica de austeridade sem alternativa, o que aconteceria caso houvesse um acordo benéfico para todos.

A estabilidade e a dignidade são dois valores que normalmente se usa para defender os governos em funções. Não neste caso. Paradoxalmente, o governo em funções oferece um horizonte de instabilidade e de indignidade, e é a oposição que assume o lado que se perceciona mais responsável, permitindo equacionar como possível um futuro estável e digno. Se razões estritas de ideologia política não houvesse, seria já um bom motivo para mudar. 

Uma tragédia sem personagens

Independentemente da inabilidade política do governo grego, que desembocou numa capitulação, a verdade é que o Syriza, em particular Varoufakis, tem razão na crítica económica da austeridade, que foi refutada empiricamente do ponto de vista económico. Contando que seja mesmo aplicada (o que não é inteiramente garantido, dadas as consequências), esta nova ronda restritiva imposta à Grécia, e que muito agrada à direita europeia para a qual o problema é que não se foi ainda suficientemente longe, vai ser a repetição duma receita falhada e trágica. As consequências são apenas imagináveis. Não por acaso, à direita há quem tente já distanciar-se disto, desviando a responsabilidade para o governo grego... que se limitará a acatar a prescrição defendida por essa mesma direita.

A seita da austeridade

Perante o fracasso da austeridade, perante a sua refutação generalizada do ponto de vista económico e racional, parece restar a crendice. A doutrina vem do dr. Passos Coelho, sobre a Grécia: "Se o próprio Governo que vai conduzir o processo de reformas que precisam de ser feitas não acreditar nesse processo, tornar-se-á progressivamente difícil que os outros acreditem que elas vão ser realizadas" (via dinheiro vivo).  

Já não basta não haver alternativa (politicamente). É preciso que, estando este caminho único carecido de qualquer sentido legítimo, passe a ser objeto dum dogma. Resta apelar ao voluntarismo quando a razão já não fornece qualquer base de sustentação.  Mas é uma crendice perigosa. Pedir que se acredite numa ideia que, não só foi refutada, como provoca decadência (na forma de depressão económica) é pedir um sentimento de prazer destrutivo, que chega mesmo a ser autodestrutivo, quando o sujeito da crença seja um membro da comunidade a sofrer. A comparação mais visual é com uma seita suicida. É isto que se pede e que se exige - convicção na autodestruição.

 

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