Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contracorrente

A culpa é do Ascenso?

Tem-se falado muito da preponderância da direita nas redes sociais, que é verdadeira. Mas é falsa a ideia, que normalmente acompanha a análise, de que essa preponderância não corresponde ao jogo de forças narrativo. Pensar desta forma pressupõe que as redes sociais são guiadas, de forma simples, por spin doctors e políticos (assumidos ou anónimos), o que não é verdade, embora haja toda essa gente. Sem uma narrativa eficaz, basta um desalinhado para contrariar um exército. Também não vale muito a pena falar em "comunicação" vs "programa". Uma campanha eleitoral é, por definição, comunicação, é um diálogo entre políticos e eleitores, para persuadir estes últimos a darem um voto de confiança, e para colocar os primeiros sob escrutínio público. Um problema grave de comunicação não pode deixar de ser entendido como um problema substantivo. Nem se diga que a direita tem uma mensagem simples, o que simplesmente não é verdade. A direita tem atualmente um discurso com vários tópicos (alguns contraditórios ou mesmo falsos, e não necessariamente assentes no seu programa) e que, ao mesmo tempo, consegue decantar em mensagens simples. O discurso da oposição parece mais disperso, pontual, falha numa ligação de conjunto, errático. É muito estranho, dado que tanto há para apontar: austeridade sem alternativa para os cidadãos comuns, de par com contratos milionários para empresas das quais aliados do governo são acionistas ou administradores; a destruição causada pela aplicação prática da cassete neoliberal, sucedida por um crescimento que vem ao arrepio das políticas do governo - assente na procura interna, de investimento escasso (que é uma prioridade no discurso da direita). Não vale a pena insistir em negar esse crescimento, dando a entender que são um incómodo para a oposição. É preciso vincar que o crescimento se baseia em decisões fora do controlo político (jurisdicionais e monetárias), que é só aparentemente uma vitória do governo e que é, na verdade, uma derrota do governo. 

Interrogo-me: porque é que a oposição não conta aos portugueses os factos sobre este governo? Seria o básico, a par duma mensagem programática própria (a alternativa "séria" e credível, mas "a sério"). Por exemplo, no que toca aos pensionistas, o PS resolveu colocar isso em cheque ao competir com o governo pela descapitalização da segurança social. Ora, muito menos gente irá votar contra a coligação, ainda que seja crítica, se não tiver a convicção razoável de que, depois de 4 de outubro, pode ter uma política alternativa, de progresso, sem implicar catástrofes. A responsabilidade do que se está a passar não é da coligação, que quer ser reeleita, e como tal aparece de repente com uma máquina de campanha altamente profissional, ao contrário do que foi esta governação. Há um problema estrutural europeu, que dificulta a equação da esquerda, mas nem tem sido discutido nesta pré-campanha. Era escusado acrescentar-lhe inércia na oposição e na alternativa. Falta um mês para legislativas e, do ponto de vista intelectual, a campanha da oposição parece não ter, sequer, arrancado.