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Contracorrente

A desilusão

Basta sair dos círculos mais elitistas de Lisboa para perceber algo de que a opinião publicada não tem praticamente falado, não parece que lhe mereça grande reflexão porque coloca em causa tudo o que se tem feito. Perscrutam-se programas eleitorais ao milímetro, observam-se listas e fazem-se sondagens para ver quem ganha, mas não se compreende o que está a acontecer. É um facto de extrema importância numa sociedade democrática, que deveria estar a ser discutido: o país está desiludido com a política. E já não é aquela desilusão de achar que são todos corruptos que estão ali para se governar, ou do desligamento face à linguagem e aos mecanismos próprios da vida política. É mais profundo. Trata-se dum problema de gestão da coisa pública e das opções estratégicas. Há um desencanto com o futuro. O país não gosta desta governação, que é culpa de quem governa, mas também não vê uma alternativa, o que interpela quem é oposição. Pode-se dizer que "não há alternativa", mas o velho brocardo "só a morte não tem solução" é relativamente consensual quando falamos de soluções humanas para problemas humanos. Há uma grande insatisfação, mas também um desencanto. Por isso, a insatisfação não é sonora. Está subentendida na incapacidade de qualquer das oposições descolar face a um governo que viu, voluntarista, o PIB cair e o desemprego disparar de forma histórica. Se fossem medir o ânimo dos votantes na coligação, os entusiastas constituiriam provavelmente um número irrisório; e o mesmo deveria passar-se com o universo dos votantes pela mudança. Quer dizer que os portugueses estão enganados, ainda não ganharam consciência dum projeto tão sólido quão diferente que anda por aí? Não me parece. Este governo é um problema mas não se reduz o nosso problema a este governo. É estrutural. Não se vislumbra um caminho optativo minimamente tranquilo para um futuro melhor (diferença séria mas a sério). Sim, não se pode culpar a oposição pelas dificuldades estruturais - digo-o há anos e continuo a dizer. Mas pode-se culpar a oposição por não enfrentar e procurar vencer essas dificuldades, preferindo antes apostar numa doce ilusão. Poderá haver quem procure algum conforto na ideia de que a política desligada dos cidadãos pode fazer-se mais livremente, negociando pragmaticamente a nível europeu o que for preciso. É o chamado discurso em torno da democracia representativa, que no fundo é mais do que isso, é a defesa duma democracia de elo desligado entre o povo soberano e o poder político mandatado. Não quero aqui recorrer ao argumento utilitarista de que, mais cedo ou mais tarde, o euroceticismo poderá aumentar, ou de que a insatisfação poderá ultrapassar o desencanto. As políticas e os políticos só existem para servir os cidadãos. A política torna-se intrinsecamente podre quando se desliga do seu fundamento. O surgimento do populismo, do euroceticismo, dos maus políticos são consequências podres. A tentativa de os esmagar por via da chantagem, do ataque cerrado pelo descrédito, em vez da via duma alternativa, é outra consequência podre. A política só tem substância quando serve convictamente os cidadãos comuns, de tal forma que cada cidadão normal e razoável possa, ainda que discordando, rever-se minimamente nela. O primeiro passo é encarar o cidadão normal, sem o preconceito habitual de que é ignorante e incapaz, com respeito.