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Contracorrente

A dor de Passos

Julguei que fosse um post isolado dum blog. Não é. Em alguma esquerda, construiu-se uma teoria de crítica de caráter, de que Passos Coelho é um monstro como pessoa: só um ser humano que não vale nada como pessoa se aproveita do cancro da mulher para fazer política. Um processo de intenções, baseado unicamente em dois factos: a mulher de Passos apareceu em público com o marido em Cabo Verde; e Passos falou do drama pessoal numa biografia encomendada, depois de ter pedido privacidade aos media. Uma teoria segundo a qual a mulher de Passos Coelho, Laura Ferreira, com cancro, não deveria aparecer careca em público, porque isso afeta a campanha. Deveria porventura esconder-se, para que ninguém visse Passos como pessoa que é, para que ninguém o imaginasse a sofrer como está. Dantes, aparecia em público, agora que tem cancro deveria esconder-se, mesmo numa visita à sua terra natal, onde foi tirada a foto que gerou polémica. Uma teoria que não admite que o sofrimento pessoal possa ser manifestado em nenhuma ocasião externa, como se alguém acreditasse nesse tipo de compartimentação absoluta. Há um direito à privacidade no sofrimento, um direito e não um dever.

No fundo, é instrumentalizar um ser humano na sua maior fraqueza, no seu sofrimento evidente em público, para sugerir aos eleitores, sem base factual, que o marido é um monstro. Sim, Laura Ferreira tem todo o direito de aparecer ao lado de Passos como sempre apareceu: mais, fazê-lo expondo-se sem cabelo só revela coragem pessoal. Sim, um marido louco pela esposa que se depare com um cancro tem todo o direito a ser incoerente, a desabafar, a descontrolar-se, como é normal. O que é de estranhar é que Passos, tão calculista politicamente quanto apaixonado por Laura, não tenha tido nenhum descontrolo em público. A única função objetiva desta crítica a Passos é tornar incómodas as aparições da mulher na campanha, e assim tentar evitá-las. Há mesmo quem chegue a dizer abertamente que Laura Ferreira não deveria ir a eventos públicos careca, porque isso é expor a intimidade (!). Rejeito tudo isto terminantemente. Não votarei na coligação que nos governa. Com a profunda divergência política que lhe tenho e querendo que mudemos de Governo, o PM está a aguentar um drama familiar. Não tenho prazer mórbido em escrutinar-lhe intenções políticas na mais profunda dor (a dum cancro da pessoa que mais ama) sem quaisquer factos que o sustentem, nem me passa pela cabeça fazer qualquer coisa contra a 'externalidade' natural de solidariedade das pessoas para com a família do PM que combato politicamente. Ainda bem que existe essa solidariedade. Mesmo que se traduza numa melhor imagem de Passos perante os eleitores, quer dizer que ainda somos humanos. Admitamo-lo: pode haver um custo eleitoral. Mas o efeito político eventual é secundário, cede perante a dignidade humana. Quem não assimila isto revela uma inadmissível insensibilidade perante o sofrimento alheio que desafie a tranquilidade da sua perspetiva política - a crueza atroz é uma forma de resolver o conflito de tal situação. Prefiro outra forma de resolver o conflito, a única que é aceitável: a solidariedade.

PS: partilho a imagem porque não há problema absolutamente nenhum nela. Mostra uma pessoa que foi a um evento público com o marido, como dantes, que por acaso agora não tem cabelo, que não deixa por isso de ir, que permanece digna e que tem o mesmo direito de todos ao respeito.

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