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Contracorrente

Crise de refugiados: E se fôssemos como os alemães?

Neste momento, Portugal admite receber 3 mil pessoas da chamada crise dos refugiados, na nossa "quota" do esforço europeu. O número começou nos 1,5 mil e, entretanto, já se fala em subir para cerca de 5 mil - o que seria perfeitamente normal, ainda que o número fosse inicialmente suficiente, porque há refugiados em trânsito que ainda não chegaram à Europa. Assumo aqui o valor oficial atual. Tem-se potenciado um certo pânico mediático, com o governo a montar um espetáculo em que se anununciam dramaticamente várias reuniões de ministros e secretários de estado para lidar com tal perturbação ao país, e com o líder do PS a sugerir que sejam deixados nas aldeias abandonadas ou mesmo na floresta a trabalhar para limpar as matas, como se nas cidades não houvesse espaço. Trata-se de apelos políticos, em pré-campanha eleitoral, pouco dignificantes, porque fazem um apelo conformado a uma certa xenofobia que existe e que é bem visível na resistência em aceitar mesmo um pequeno número de refugiados, nos comentários nas redes sociais acerca da nossa incapacidade de albergar tanta gente, nas questões acerca do trabalho que essas pessoas vão ter, ou no medo de que os refugiados muçulmanos sejam, basicamente, terroristas disfarçados. Convém, por isso, perceber de que esforço estamos a falar e os políticos têm dado tanto destaque. Noutro post neste blog, já mencionei o número irrisório de refugiados na UE, por comparação a alguns países mais pobres e mais pequenos, como a Turquia - facto que deveria pôr os dirigentes europeus a pensar. Há um exagero nos medos que vão sendo invocados para resistir à chegada destes refugiados. Faço agora um exercício detalhado em relação às perspetivas futuras de acolhimento de refugiados especificamente em Portugal, comparando com o número avançado oficialmente na Alemanha.

O governo alemão prevê, no momento, aceitar receber 800 mil refugiados (o que não quer dizer que tal número não seja ultrapassado pela força das circunstâncias, como acima se disse). A notícia tem sido muito bem recebida pelo mundo todo, pelo que se assume que este esforço é louvável. Em Portugal, diz-se que estamos também a fazer o nosso esforço. Para ver se isso é verdade, comecemos pelo impacto populacional. Os 800 mil refugiados na Alemanha corresponderão a 0,99% da população. Em Portugal, os 3 mil representam 0,03% do total de habitantes no nosso território. Em termos demográficos, portanto, estamos muito longe da Alemanha, de forma quase patética. Qual seria o número de refugiados a receber por Portugal se fizéssemos um esforço demográfico idêntico ao alemão? A resposta, pelas minhas contas, é brutal: para termos um número equivalente a 0,99% duma população de cerca de 10,640 milhões, passaríamos dos 3.000 atualmente admitidos pelo governo, para 103.544 - um número 34 vezes superior. 

É certo que Portugal não é um país tão rico quanto a Alemanha. Dir-se-á que os alemães conseguem suportar um esforço solidário muito superior - e é verdade. O PIB per capita alemão é mais de 2 vezes superior ao português. Será, por isso, justo aplicar, nesta comparação, um fator económico. Ajustando os 103.544 (resultantes do esforço populacional equivalente) à diferença económica entre cada cidadão português e cada cidadão alemão, isto é, a um PIB per capita relativo de 46,97%, chegaríamos a um número de refugiados a admitir de 48.639. O número é semelhante se ajustarmos diretamente o número de refugiados anunciados pela Alemanha ao PIB português, comparado com o PIB alemão. Ou seja, economicamente, por comparação à Alemanha, teríamos condições de acolher 16 vezes mais pessoas do que o governo admite.

Em conclusão, se elogiarmos o esforço alemão, isso significa que há grostesca falta de esforço portuguesa, e que a teremos de criticar duramente, sob pena duma contradição insanável. Se há um exagero nos medos que vão sendo invocados para resistir à chegada dos refugiados, em Portugal esse exagero é flagrante, muito mais do que na Alemanha (16 vezes mais). Tal não significa dizer que qualquer medo é ilegítimo, porque há riscos e perturbações inevitáveis que não se podem negar. Significa, sim, que o medo se torna ilegítimo quando é largamente exagerado, num tal grau que não é racionalmente explicável, sobretudo quando os riscos e perturbações são perfeitamente geríveis. Portugal é um exemplo disso mesmo, com o fenómeno dos retornados na década de 1970 (bem ou mal gerido). O campo dos medos irracionais é, como se sabe e por definição, o da xenofobia, que todos temos e que todos podemos minorar.

Nota: os dados demográficos e económicos que utilizei nas contas são de 2013.