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Contracorrente

Imprudência e instabilidade

Não é popular de se dizer isto. mas, numa análise às notícias recentes, percebe-se que não tem havido prudência nem estabilidade política. Qualquer social-democrata, sendo contra a austeridade, percebe que não é possível repor tudo duma vez. É imprudente dar a entender isso e, no entanto, o governo deu a entender isso. Fê-lo porque se formou num contexto político tal que se colocou numa posiçao de ter de cobrir, constantemente, as apostas do BE e da CDU, que, por sua vez, podem ir subindo tais apostas de forma inconsequente, dado que não estão comprometidos com a governação.

O resultado foi, mais uma vez, a elevação insustentável de expectativas que serão, inevitavelmente, goradas (a menos que se insistisse na imprudência). E já começam a ser. Por que via? Esta: aquilo com que o governo, para poder nascer e existir, se comprometeu, impede que o governo subsista, se mais nada for feito. Uma parte significativa do que se vai devolvendo terá de ser compensada. E o governo, que começara por afirmar, no início, uma compensação assente em coisas como o crescimento económico, o imposto sucessório e a não descida do IRC, passadas poucas semanas já assume que tal não basta. A devolução que ainda não ficar coberta vai ser compensada tirando, por outra via, aos mesmos a quem se devolvera. É dar com uma mão e tirar com a outra. Reaparece, no "tempo novo", o velho jogo de ilusões que tanto tem descredibilizado a política junto da classe média.

A acusação de que o governo está a tirar dos privados para dar aos funcionários públicos é uma simplificação distorcida. A função pública foi quem mais sofreu medidas de austeridade, algumas até inconstitucionais, adotadas pelo anterior governo de direita, que procurou dividir o país ao meio. Por isso, é natural que a devolução seja mais acentuada. O que não se compreende é a imprudência de devolver a um ritmo superior ao que seria adequado, para a seguir, de forma mais discreta, em nome de alguma sensatez, se revogar uma parte não despicienda do que se anunciara como grande mudança na austeridade; gorando as expectativas legítimas de quem ouviu o governo e, ainda por cima, ficando com a fama e sem o proveito junto dos instáveis, muitas vezes irracionais e, não obstante, duríssimos mercados internacionais de dívida pública. Ou melhor, compreende-se: a solução de governo encontrada levou a isto.
Enquanto parecem ter uma parceria, PS, BE e CDU competem ferozmente, o que já se notava no tipo de "acordos" assinados para permitir a formação do governo. Certamente, o governo não cairá a curto prazo. A chave dessa queda, a haver, estará no momento em que o governo não consiga mais cobrir as apostas do BE ou da CDU, ou que estes não mais aceitem as medidas de compensação que surjam, ou ainda que haja um novo problema nos mercados de dívida. Mas já deveria ser por demais evidente, mesmo ao observador mais otimista, a precariedade desta situação política. Tem-se falado da inteligência do BE e da CDU na forma como lidaram com a situação política. É verdade que, do ponto de vista tático, conseguiram impor ao PS, com um líder derrotado nas urnas desesperado por uma saída, uma solução que lhes é favorável. Mas não se tem notado outra coisa: a atitude foi também uma desresponsabilização pelo destino do país, da parte de quem sempre afirma proteger os interesses dos portugueses (e muitas vezes o faz, efetivamente). Isso não pode ser esquecido.