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Contracorrente

Incendiários

Já perdi a conta das reviravoltas na crise política grega (convém vincar que a crise económica tem sido prolongada por motivos estritamente políticos). Hoje foi um dia negro, prenunciado pela não demissão na presidência do eurogrupo de Jeroen Dijsselbloem - demissão que, havendo verdadeira vontade negocial, se exigiria, dadas as declarações irredutíveis proferidas antes do referendo grego e sobretudo após a demissão da contraparte irredutível (Yanis Varoufakis). Um presidente do eurogrupo numa posição de que não pode sair, por ter ido demasiado longe, não serve para negociar. 

Este foi um dia negro para a Europa, um dia em que a intransigência política chegou aos píncaros. Já não basta à Grécia o que bastava há dias, nem sequer chega agora subir o esforço para valores consideravelmente acima dos de há dias. Exige-se-lhe que provoque uma segunda vaga de depressão económica, com medidas recessivas em catadupa, e uma cedência da soberania (50 mil milhões de ativos públicos como garantia dos credores). Hoje, não há como não ver que o fundamental do problema é político (estritamente). A crise, essa, tem sido protelada de forma irracional do ponto de vista económico. Ao contrário do que diz alguma esquerda, o problema atual não é a economia ter tomado conta da política, mas precisamente a política fazer-se ao arrepio de todo o conhecimento económico consolidado durante esta crise, conhecimento que atesta o fracasso da austeridade numa lógica de recuperação económica para os estados e a União Europeia. 

Tudo isto já seria mau o suficiente, mas ainda piorou. Algumas pessoas têm dito que, do ponto de vista económico, seria melhor para a Grécia sair do euro, outras tem defendido o contrário. Não obstante a divergência, há um significado político quando se coloca em cima da mesa o cenário duma expulsão (ainda por cima ilegal, porque não prevista no ordenamento jurídico da União). Voltámos hoje oficialmente a sentir reminescências do tempo da Europa de exclusão e de humilhação total dos mais fracos. Ainda bem que, pelo menos, a França tenha liderado uma oposição a tudo isto. O que está em jogo é muito mais do que economia. É o próprio espírito inclusivo que animou a Europa e lhe deu força para uma nova forma de progresso, depois da queda do imperialismo e do colonialismo, depois da Guerra. É a própria identidade do projeto europeu. A mediocridade, o pensamento de curto prazo e de vistas curtas na gestão da crise, tipicamente reconduzido às duas falácias "quem paga?" e "não há alternativa", é o pior tipo de incendiarismo. Não é o primeiro, mas é mais um dia em que sinto vergonha desta forma de viver a Europa, e também vergonha de quem nos governa em Portugal que, sem surpresa, embarca nesta irresponsabilidade política e económica, para não falar na mais profunda insensibilidade ao sofrimento de um povo. Se isto continua assim, o que quer que possa acontecer a seguir na Grécia (e na Europa) terá responsáveis. Irresponsáveis.