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Contracorrente

Não nos incomodem

Dificilmente se encontrará na História das Comunidades, e depois da União Europeia, uma decisão formal tão chocante quanto a que hoje está a ser notícia sobre os refugiados. O princípio de que se parte é, desde logo, um equívoco: podermos olhar para refugiados da mesma forma que olhamos para a imigração. Depois, conclui-se: não temos capacidade. Por contraste com que países? De pouco vale lembrar que somos o bloco económico mais rico do mundo, ou qualquer argumento racional. A razão dificilmente altera o que nasce contra a razão. Qual é, então, a opção? Uma hipótese seria mandar os incómodos refugiados de volta aos países de origem, o que até poderia constituir crime. Resta colocá-los em campos, mas não campos quaisquer: de modo a que não incomodem, tem de se gastar o mínimo e impedi-los de daí fugir. Pequeno problema: a UE e os estados violariam os princípios jurídicos a que estão adstritos e de que se orgulham superiormente - a sociedade civilizada. Mas o problema resolve-se facilmente: terceiriza-se o belo serviço. Paga-se a algum estado terceiro para lavar a nossa roupa suja. continuamos civilizados. que estado se poderia escolher? Que tal um estado que tinha interesse em aderir ou cooperar mais com a União e que sempre foi rejeitado? Melhor ainda: que tal um estado que tem já uns milhões de refugiados por lá? Pode ser que ninguém repare na pressão adicional... problema resolvido. O bloco económico mais rico do mundo, não querendo perturbações com o incómodo supérfluo dos refugiados, mobiliza o seu poder político para desequilibrar ainda mais a situação, recambiando estas incómodas vítimas das guerras no médio oriente e dos próprios erros europeus nessa zona do mundo a países muito mais pobres e pequenos, que já acolheram um número muito superior de refugiados do que os que alguma vez pisaram o nosso solo sagrado. Em troca, dá-se uma esmola generosa. E ainda dizem que a Europa é o continente onde a real politik termina no momento em que começa a dignidade humana... 

Julgar que a desumanidade da senhora Le Pen ou a crueldade do senhor Trump do outro lado do atlântico são o problema que precisa ser suprimido é um enorme equívoco motivado por falta de perspetiva. O problema está em nós.