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Contracorrente

Seis Vitimas da Derrota de Tsipras e do Syriza

A situação é muito fluída e imprevisível, mas ao momento em que escrevo estas linhas, parece que, afinal, e contra todas as previsões, o governo do Syriza cede em toda a linha, a Grécia fica no Euro e apanha com mais um tapete de austeridade em cima.

A nova proposta do governo grego aplica mais austeridade que a própria proposta da UE que foi a referendo e coloca em causa a própria credibilidade de Tsipras para permanecer à frente do governo grego, já que viola de forma flagrante o programa eleitoral que colocou o Syriza no governo e o renovado mandato anti-austeritário saído do referendo. As seis grandes vitimas são assim, e, por ordem:

Primeira vitima: O povo grego: que assim vê aplicada uma nova dose da receita que os últimos cinco anos já provaram não funcionar: austeridade e contenção orçamental (que tem que haver) sem um plano forte e inteligente de investimento e redução de divida.

Segunda vitima: A democracia: se votar num programa e num referendo não vale nada, e não condiciona (nem um pouco) a acção de um governo eleito e se os interesses, pouco democráticos, de uma Europa credora, arrogante e que enriqueceu com a crise dos países do sul, prevalecem sobre a vontade popular, livremente expressa em sufrágio, então já não vivemos em democracia, mas noutra coisa qualquer: Vivemos em austerocracia.

Terceira Vitima: As alternativas de governo em Portugal erguidas em torno de uma resposta mais ou menos feroz ao mandato austeritário seguido cegamente por Passos-Portas e que se materializam nas programas de Bloco e Livre e, parcialmente, no programa de governo do Partido Socialista. A completa subjugação do Syriza vai assim contribuir para o reforço dos partidos pro-austeritários (PP em Espanha, PSD e PP em Portugal) e corroer a ascensão das alternativas (Podemos, FN, UKIP, M5E, etc).

Quarta vitima: Paradoxalmente, o esmagamento de Tsipras e do Syriza representam, também, a derrota de Merkel... Julgada pela maioria do seu partido e dos alemães como "fraca" (por oposição a Shauble) e disposta a manter a Grécia no Euro e a conceder um terceiro resgate à Grécia.

Quinta vitima. O projecto europeu: derrotado em toda a linha no momento em que as duas principais instituições europeias (BCE e CE) se deixaram tornar em credores de um Estado-Membro. A partir desse momento, o principio da solidariedade, do desenvolvimento acompanhado e da construção de uma "nação europeia" tornaram-se secundários, tornando-se primários a defesa dos capitais creditados e da estabilidade de uma moeda comum insustentável e incompatível com as grandes diversidades económicas e nos países da Zona Euro.

Sexta vitima: o governo do Syriza. Parece claro, hoje, que o Syriza apostou tudo num jogo onde a sua contrapartida nunca foi, de facto, assumida: o Syriza desafiou a Europa a aceitarem o seu plano ameaçando com uma saída do Euro, mas nunca preparou, de facto, ou antecipou essa saída. Agora, pressionada pelos seus bancos em fusão em precisando de 10 a 14 mil milhões de euros em poucos dias, sem um "plano B" (regresso ao Dracma) montado, nem alternativas, teve que montar apressadamente um novo tapete austeritário e submeter-se ao poder dos credores, demonstrando assim que não era um negociador sério e realmente comprometido a tudo fazer para sair vencedor do processo. Perante tal derrota, o governo grego sai profundamente fragilizado e, a curto prazo, deverá submeter-se a eleições...