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Contracorrente

Sobre o Plano B do Syriza

Segundo um artigo no DN o plano dos "radicais" do Syriza para sair do euro passava por confiscar as reservas em euros no Banco central (entre 10 a 20 mil milhões de euros) e usá-las durante oito meses para pagar salários, pensões e financiar importações. Paralelamente, pedia-se ajuda financeira à Rússia e começava-se a imprimir e distribuir o novo dracma pelo pais.

Três comentários a propósito deste plano:
1. Quando a República Checa emitiu moeda própria, fê-lo de surpresa, entre uma sexta e uma segunda-feira, distribuindo-a pelos bancos do pais durante os dias seguintes, em camiões blindados. Não foram precisos oito meses.
2. Logo que a Grécia saísse do Euro, estes milhões confiscados seriam declarados como falsos pelo BCE e os números de série das notas (impressas na Alemanha como as nossas) seriam adicionados às listas mundiais de falsificações.
3. A Rússia não tem capacidade financeira para substituir os financiamentos europeus, especialmente agora que graças ao petróleo não convencional e ao acordo com Teerão o petróleo vai entrar em nova fase de queda sustentada e prolongada.

Se Atenas quer mesmo sair do Euro só tem uma forma: manter o uso e sem restrições do euro e lançar uma moeda electrónica (utilizável via internet e através de smartphones e do seu chip de encriptação) de uso nacional criando mecanismos fiscais de estímulo ao seu uso interno, encetando negociações com parceiros internacionais escolhidos (como a Rússia) para que a aceitassem no comércio bilateral. Nada nos tratados impede tal solução e tal manobra seria além de um grito de soberania e de uma expressão de revolta contra a tirania norte europeia uma forma de contornar o ajustamento pela via convencional do empobrecimento interno de rendimentos.

Sem "Plano B"

Como disse no mesmo dia em que se soube do total ajoelhamento grego face aos credores, o grande erro de Tsipras foi o de ter ido para as negociações sem um "plano B" (saída preparada do euro).
Isso mesmo admitiu recentemente o próprio ao escrever que "o regresso ao dracma iria provocar o colapso".
Ora a saída da Grécia do euro deveria ter sido devidamente preparada nestes cinco (5!) Meses. Não foi. Alias, essa saída é, ademais, inevitável a prazo: ninguém (de credores aos gregos) acredita que mais austeridade vai resolver alguma coisa ou que mais divida nova para pagar divida velha será uma solução viável para a Grécia.
A saída da Grécia não é o fim do euro (como disse António Costa), a saída é, mesmo a sua única saída viável e de futuro, admitindo-se aqui, contudo, vários modelos de "saída" em que as moedas locais (que já existem) ou uma moeda de curso interno poderão ser parte desta solução.

Uma tragédia sem personagens

Independentemente da inabilidade política do governo grego, que desembocou numa capitulação, a verdade é que o Syriza, em particular Varoufakis, tem razão na crítica económica da austeridade, que foi refutada empiricamente do ponto de vista económico. Contando que seja mesmo aplicada (o que não é inteiramente garantido, dadas as consequências), esta nova ronda restritiva imposta à Grécia, e que muito agrada à direita europeia para a qual o problema é que não se foi ainda suficientemente longe, vai ser a repetição duma receita falhada e trágica. As consequências são apenas imagináveis. Não por acaso, à direita há quem tente já distanciar-se disto, desviando a responsabilidade para o governo grego... que se limitará a acatar a prescrição defendida por essa mesma direita.

A seita da austeridade

Perante o fracasso da austeridade, perante a sua refutação generalizada do ponto de vista económico e racional, parece restar a crendice. A doutrina vem do dr. Passos Coelho, sobre a Grécia: "Se o próprio Governo que vai conduzir o processo de reformas que precisam de ser feitas não acreditar nesse processo, tornar-se-á progressivamente difícil que os outros acreditem que elas vão ser realizadas" (via dinheiro vivo).  

Já não basta não haver alternativa (politicamente). É preciso que, estando este caminho único carecido de qualquer sentido legítimo, passe a ser objeto dum dogma. Resta apelar ao voluntarismo quando a razão já não fornece qualquer base de sustentação.  Mas é uma crendice perigosa. Pedir que se acredite numa ideia que, não só foi refutada, como provoca decadência (na forma de depressão económica) é pedir um sentimento de prazer destrutivo, que chega mesmo a ser autodestrutivo, quando o sujeito da crença seja um membro da comunidade a sofrer. A comparação mais visual é com uma seita suicida. É isto que se pede e que se exige - convicção na autodestruição.

 

Incendiários

Já perdi a conta das reviravoltas na crise política grega (convém vincar que a crise económica tem sido prolongada por motivos estritamente políticos). Hoje foi um dia negro, prenunciado pela não demissão na presidência do eurogrupo de Jeroen Dijsselbloem - demissão que, havendo verdadeira vontade negocial, se exigiria, dadas as declarações irredutíveis proferidas antes do referendo grego e sobretudo após a demissão da contraparte irredutível (Yanis Varoufakis). Um presidente do eurogrupo numa posição de que não pode sair, por ter ido demasiado longe, não serve para negociar. 

Este foi um dia negro para a Europa, um dia em que a intransigência política chegou aos píncaros. Já não basta à Grécia o que bastava há dias, nem sequer chega agora subir o esforço para valores consideravelmente acima dos de há dias. Exige-se-lhe que provoque uma segunda vaga de depressão económica, com medidas recessivas em catadupa, e uma cedência da soberania (50 mil milhões de ativos públicos como garantia dos credores). Hoje, não há como não ver que o fundamental do problema é político (estritamente). A crise, essa, tem sido protelada de forma irracional do ponto de vista económico. Ao contrário do que diz alguma esquerda, o problema atual não é a economia ter tomado conta da política, mas precisamente a política fazer-se ao arrepio de todo o conhecimento económico consolidado durante esta crise, conhecimento que atesta o fracasso da austeridade numa lógica de recuperação económica para os estados e a União Europeia. 

Tudo isto já seria mau o suficiente, mas ainda piorou. Algumas pessoas têm dito que, do ponto de vista económico, seria melhor para a Grécia sair do euro, outras tem defendido o contrário. Não obstante a divergência, há um significado político quando se coloca em cima da mesa o cenário duma expulsão (ainda por cima ilegal, porque não prevista no ordenamento jurídico da União). Voltámos hoje oficialmente a sentir reminescências do tempo da Europa de exclusão e de humilhação total dos mais fracos. Ainda bem que, pelo menos, a França tenha liderado uma oposição a tudo isto. O que está em jogo é muito mais do que economia. É o próprio espírito inclusivo que animou a Europa e lhe deu força para uma nova forma de progresso, depois da queda do imperialismo e do colonialismo, depois da Guerra. É a própria identidade do projeto europeu. A mediocridade, o pensamento de curto prazo e de vistas curtas na gestão da crise, tipicamente reconduzido às duas falácias "quem paga?" e "não há alternativa", é o pior tipo de incendiarismo. Não é o primeiro, mas é mais um dia em que sinto vergonha desta forma de viver a Europa, e também vergonha de quem nos governa em Portugal que, sem surpresa, embarca nesta irresponsabilidade política e económica, para não falar na mais profunda insensibilidade ao sofrimento de um povo. Se isto continua assim, o que quer que possa acontecer a seguir na Grécia (e na Europa) terá responsáveis. Irresponsáveis.

Seis Vitimas da Derrota de Tsipras e do Syriza

A situação é muito fluída e imprevisível, mas ao momento em que escrevo estas linhas, parece que, afinal, e contra todas as previsões, o governo do Syriza cede em toda a linha, a Grécia fica no Euro e apanha com mais um tapete de austeridade em cima.

A nova proposta do governo grego aplica mais austeridade que a própria proposta da UE que foi a referendo e coloca em causa a própria credibilidade de Tsipras para permanecer à frente do governo grego, já que viola de forma flagrante o programa eleitoral que colocou o Syriza no governo e o renovado mandato anti-austeritário saído do referendo. As seis grandes vitimas são assim, e, por ordem:

Primeira vitima: O povo grego: que assim vê aplicada uma nova dose da receita que os últimos cinco anos já provaram não funcionar: austeridade e contenção orçamental (que tem que haver) sem um plano forte e inteligente de investimento e redução de divida.

Segunda vitima: A democracia: se votar num programa e num referendo não vale nada, e não condiciona (nem um pouco) a acção de um governo eleito e se os interesses, pouco democráticos, de uma Europa credora, arrogante e que enriqueceu com a crise dos países do sul, prevalecem sobre a vontade popular, livremente expressa em sufrágio, então já não vivemos em democracia, mas noutra coisa qualquer: Vivemos em austerocracia.

Terceira Vitima: As alternativas de governo em Portugal erguidas em torno de uma resposta mais ou menos feroz ao mandato austeritário seguido cegamente por Passos-Portas e que se materializam nas programas de Bloco e Livre e, parcialmente, no programa de governo do Partido Socialista. A completa subjugação do Syriza vai assim contribuir para o reforço dos partidos pro-austeritários (PP em Espanha, PSD e PP em Portugal) e corroer a ascensão das alternativas (Podemos, FN, UKIP, M5E, etc).

Quarta vitima: Paradoxalmente, o esmagamento de Tsipras e do Syriza representam, também, a derrota de Merkel... Julgada pela maioria do seu partido e dos alemães como "fraca" (por oposição a Shauble) e disposta a manter a Grécia no Euro e a conceder um terceiro resgate à Grécia.

Quinta vitima. O projecto europeu: derrotado em toda a linha no momento em que as duas principais instituições europeias (BCE e CE) se deixaram tornar em credores de um Estado-Membro. A partir desse momento, o principio da solidariedade, do desenvolvimento acompanhado e da construção de uma "nação europeia" tornaram-se secundários, tornando-se primários a defesa dos capitais creditados e da estabilidade de uma moeda comum insustentável e incompatível com as grandes diversidades económicas e nos países da Zona Euro.

Sexta vitima: o governo do Syriza. Parece claro, hoje, que o Syriza apostou tudo num jogo onde a sua contrapartida nunca foi, de facto, assumida: o Syriza desafiou a Europa a aceitarem o seu plano ameaçando com uma saída do Euro, mas nunca preparou, de facto, ou antecipou essa saída. Agora, pressionada pelos seus bancos em fusão em precisando de 10 a 14 mil milhões de euros em poucos dias, sem um "plano B" (regresso ao Dracma) montado, nem alternativas, teve que montar apressadamente um novo tapete austeritário e submeter-se ao poder dos credores, demonstrando assim que não era um negociador sério e realmente comprometido a tudo fazer para sair vencedor do processo. Perante tal derrota, o governo grego sai profundamente fragilizado e, a curto prazo, deverá submeter-se a eleições...