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Contracorrente

Somos um povo moderado. Certo?...

As eleições - reiteradas vezes - provaram que o povo português é um povo moderado, avesso a radicalismos e centrista (no sentido em que mescla posições de "direita" como a economia de mercado e o liberalismo politico) com posições de "esquerda" (como o Estado Social, a Escola e a Saúde Públicas).
E se desde 1975 o PS se assumiu como um partido de charneira ao sistema politico-partidário português, isso deveu-se à sua capacidade para se posicionar como um partido de centro-esquerda, moderado e imune a radicalismos ou loucos experimentalismos de esquerda ou direita.
Se agora, apenas para conquistar o Poder e alimentar o Aparelho, se assumir a função governativa que o povo, em eleições, não lhe quis dar isso terá custos nas próximas eleições (que serão inevitavelmente antecipadas):
1. Custos para o PS que é um partido de centro-esquerda que não pode governar à extrema-esquerda.
2. Custos para BE ou PCP que pagarão o preço de governarem dentro do espartilho do euro e da União Europeia.
3. Custos - em geral - para a esquerda que assim abrirá espaço para que o eleitorado centrista (60%) e o oscilante (entre 10 a 20%) se bandeie para o centro-direita dando assim à direita a maioria nas próximas eleições.

O que deve fazer o Secretário-Geral do Partido Socialista?

O que penso que deve fazer o Secretário-Geral do PS: Demitir-se e submeter-se a Primárias (com outros candidatos a Primeiro-Ministro). Assim relegitimaria o seu mandato, devolveria à democracia  a escolha da liderança e reforçaria o seu (contestado) papel na derrota nas #Legislativas2015.

No entretanto e, porque o pais não pára, não se pode permitir que Cavaco force o grupo parlamentar a qualquer tipo de "acordo de regime":
1. Cada lei e iniciativa parlamentar deve ser avaliada segundo os seus méritos ou deméritos individuais.
2. O Partido deve continuar o diálogo com a Esquerda parlamentar acertando posições comuns e eventuais iniciativas conjuntas.
3. O povo é soberano e nesse exercício entendeu dar a vitória ao PSD-PP, logo, deve ser esta coligação que tem que formar e assumir as responsabilidades executivas. O PS não deve impedir esta tomada de posse nem bloquear o orçamento. O povo não compreenderia uma posição de guerrilha sistemática e uma postura cronicamente negativa.
4. O PS não foi o partido mais votado e PCP e BE concorreram separados, logo, não deve haver um governo à Esquerda. Não foi essa a vontade popular. Simples.
5. A maioria dos votantes exprimiram uma posição antiausteritária. Logo, é dever das oposições realizarem no Parlamento a transposição dessa vontade popular.

Partido Socialista - estabilidade e dignidade

Há uma questão ideológica muito vincada nestas eleições, e que tem sido muito focada, mas há muito mais do que isso. Há uma questão de dignidade e de estabilidade. Este governo não teve qualquer pudor em desbaratar toda a esperança e todo o orgulho do país. O argumento atual é o de que isso era necessário para podermos reconquistar credibilidade, para evitar uma capitulação ao estilo da Grécia, como se a incompetência política do Syriza fosse desculpa para a inépcia política portuguesa. É como se nos puséssemos de joelhos preventivamente para não ficar de joelhos postumamente, sendo que o resultado é de soma nula. Não acho que o pin na lapela seja uma coisa pindérica, ou que seja algo ao arrepio do desdém pela dignidade portuguesa. Pelo contrário, é mesmo um símbolo desse desdém: não se sendo, procura-se parecer. A total desconsideração não foi apenas pela dignidade do país enquanto ente coletivo, foi também pela dignidade dos próprios portugueses, sacrificados a um pretenso sacrifício salvífico por uma redenção que nunca chegou nem chegará, instrumentalizados a um projeto político de concentração da riqueza por via duma redistribuição invertida, da base para o topo.

Mas também há uma questão de estabilidade. Com uma maioria absoluta, este governo de coligação esteve sempre à beira da rutura. Os dois líderes, senhores Passos Coelho e Paulo Portas, não se conseguem entender na partilha de poder, quando dominam o parlamento e a presidência da república. Alguém imagina como se irão concertar num possível governo minoritário (a crer nas sondagens)? Poderiam as dificuldades políticas servir para os aproximar, mas isso requereria um espírito de missão e algum despojamento. O risco é enorme. Alguém consegue confiar que qualquer um dos dois, Passos ou Portas, não roerá a corda assim que julgue que tem condições para isso, num momento que lhe seja mais favorável face ao outro? Até com a troica em Portugal, Portas tentou fazê-lo em 2013.

Não é irrelevante que um governo minoritário seja do PS ou da coligação PSD/CDS. Admitindo o cenário de um PS com maioria relativa, o facto de ser só um partido, além disso consolidado na democracia portuguesa, oferece uma garantia: a da solidez na governação, apenas correndo o risco de cair por uma moção de censura no parlamento, o que seria legítimo mas só colocaria um desafio externo do governo face às oposições, não um desafio interno juntamente com o externo (caso dum governo de coligação PSD/CDS minoritário). Nem se invoque a chamada “ala esquerda” do PS: salvo exceções, tratou-se duma manobra tática dum grupo dentro do PS, contra a liderança de Seguro; perante a liderança que se pretendia, com a configuração de poder interno desejada, tal ala esquerda já se esfumou na aliança ao líder, na crítica à esquerda radical (coisa que antes se arremessava contra Seguro), enfim, no ocaso do discurso mais consciente, em parte certeiro.

Para quem queira estabilidade, o PS é melhor do que a coligação PSD/CDS, em qualquer das circunstâncias que se afiguram presentemente. Por outro lado, por muito que o PS ziguezagueie, hesite, não apresente um debate sério sobre a austeridade, nomeadamente em matéria de tratados europeus, esteja demasiado elitista, tenha um programa económico assente largamente na ideia irresponsável de descapitalizar a segurança social, a verdade é que tem um discurso social que a coligação não tem. Está disposto a acordos europeus que tenham em conta o interesse dos portugueses a que a coligação não está, pelo contrário – o governo português apressou-se, recentemente, a apertar a Grécia em reuniões europeias mais do que o próprio governo alemão, apenas para não perder a face internamente na sua lógica de austeridade sem alternativa, o que aconteceria caso houvesse um acordo benéfico para todos.

A estabilidade e a dignidade são dois valores que normalmente se usa para defender os governos em funções. Não neste caso. Paradoxalmente, o governo em funções oferece um horizonte de instabilidade e de indignidade, e é a oposição que assume o lado que se perceciona mais responsável, permitindo equacionar como possível um futuro estável e digno. Se razões estritas de ideologia política não houvesse, seria já um bom motivo para mudar.